20 de maio de 2013


Ao notar a proximidade do show da banda inglesa The Vaccines me apressei a comprar ingressos crendo que seria mais um show disputado com venda de ingressos inflacionados na porta. Entretanto para minha surpresa, toda vez que contava que ia à apresentação da banda inglesa, me deparei com diversas reações inusitadas de amigos e conhecidos. Manifestações do tipo “The o que?”, “Isabela para de inventar banda, nunca ouvi falar”, ou até mesmo “é tipo The Kooks?”. Nada me abalou e finalmente adquiri os ingressos com uma taxa um tanto quanto careiras – R$90,00 a meia entrada + 13,50 de conveniência + R$15,00 de Sedex. As taxas da preguiça e da comodidade.

Nota-se que ir em qualquer show exige um ritual, do momento em que você passa a semana toda escutando os discos da banda e fantasiando sobre sua música predileta sendo tocada ao vivo. Até a estratégia que você se dividirá em 500 para conseguir chegar no local, pois infelizmente (ou felizmente) o final de semana coincidiu com a tal Virada Cultural. De metrô seria tranquilo e levaria uma caminhada de 5 minutos em um sábado normal. Entretanto como a estação República estava tomada por pessoas, além de diversas ruas interditadas para os palcos da Virada. Tal cenário era de uma semelhança perturbadora com o apocalíptico filme de Will Smith, Eu Sou a Lenda. A maré desordenada e por vezes violenta de pessoas em uma metrópole devastada, não poderia deixar de me recordar a Nova Iorque do filme.

Depois de presenciar diversas brigas, atravessar a enorme quantidade de jovens consumidores das mais diversas substâncias, pedir orientação a policiais e anônimos mal humorados, acho o número 187 da Avenida São Luís. Dentro de uma grande galeria, você se perderia entre as lojas se não fossem os mais diversos meninos e meninas portando óculos a lá Buddy Holly, que te guiam até o local certo. Uma fila imensa para revista e entrada e apenas duas pessoas fazendo o serviço, não comportava a quantidade exorbitante de pessoas ansiando a entrada. Infelizmente aos obstáculos no meio do caminho, ao subir as escadas do charmosíssimo Grand Metropole, com a entrada toda espelhada e candelabros suntuosos, escuto os vocais de Justin Young e a música de abertura: No Hope.

A casa lotada, pessoas se amontoando nos degraus que separam as duas pistas, algumas no limite da escada, se viravam do jeito possível para aproveitar a ótima acústica e o som alto. Se você se aproximava do palco, entretanto notava que o espaço estava com a concentração exata de pessoas: não cheio o suficiente para que se tornasse impossível desfrutar do show nem vazio ao ponto de desanimar a multidão. O set de 21 músicas dos dois discos da banda, não conseguiam deixar ninguém parado. Entre palmas guiadas pelo guitarrista Freddie Cowan, o público animado entoava os refrãos dançantes e pulava à batida da bateria.

Segunda ocasião que a banda se apresenta no país, Justin, declara que nós somos a plateia mais barulhenta e mais divertida para se apresentar no mundo todo. Sem dúvidas ele diz isso para todas, é porém mais um dos truques de ganhar o público, já totalmente conquistada pela banda. Uma ótima apresentação que em alguns momentos, os instrumentos saiam de sincronia entre si, como no caso de Wetsuit, mas nada que fosse altamente perceptível pelo público completamente hipnotizadas pela energia do quarteto. Abriram espaço para apresentar uma música nova, a balada Melody Calling, em que o vocalista deixa de lado sua guitarra fiel e busca no violão apoio para a melodia mais calma, da música que parece ser o próximo single da banda.

Com o set mesclado com faixas dos dois discos, mesmo as menos conhecidas, como Family Friend e Weirdo, excelentemente executadas, deixam aquela vontade de que o show durasse mais duas horas. As brincadeiras das luzes no palco intimista, que deixavam a banda perto da plateia, sem os telões de shows maiores, dependendo da música ajudavam a criar o clima certo. Como no caso da All In White, em que o palco se tornou flashes de luz branca, e o público cantava com toda sua força a música inteira.

Ao término de Family Friend, os músicos saem do palco repentinamente e deixam a plateia órfã pedindo bis. A produção leva os instrumentos e o clima de incerteza beira as pessoas a tristeza. Um menino com pinta de hipster ao lado declara: “Não pode ter acabado assim. Não pode. É brincadeira deles, certeza. Eles sempre fazem isso”. E não é que nosso insider tinha razão, o primeiro a retornar ao posto, foi o baterista seguido de seus companheiros e um alvoroço de palmas e gritos vindos dos espectadores. Teenage Icon e a divertida Norgaard embalam o público pelos últimos minutos de um ótimo show. A banda se despede com um até logo dos palcos paulistas e são ovacionados uma última vez em solo nacional. Aqueles que não conheciam a banda, tem mais uma discografia para baixar, aqueles que já a conheciam passam a prestigiar não só a música, mas a performance como um conjunto todo. Assim, como há o "pré-show", há o "pós-show", tenho certeza que toda vez que passar pela região da Praça da República vou lembrar de um show intimista que vi em plena Virada Cultural.

Set List:
No Hope
Wreckin' Bar (Ra Ra Ra)
Ghost Town
I Always Knew
Wetsuit
Under Your Thumb
Tiger Blood
Melody Calling
All in Vain
Post Break-Up Sex
All in White
Wolf Pack
A Lack of Understanding
Aftershave Ocean
Blow It Up
Bad Mood
If You Wanna
Family Friend


Encore:
Weirdo
Teenage Icon
Nørgaard


Foto por Fernando Galassi/ Monkeybuzz

Sempre é interessante ver um artista de uma banda se colocando em outros projetos desvinculado daqueles que já fazem sucesso. Carreiras solos nem sempre são bem vindas aos fãs mais ortodoxos de algumas bandas, alguns alegam que tal ato é puro marketing ,outros não apreciam quando sua banda favorita se desfaz. O fato é que é sempre interessante ver como um artista consegue se articular e desenvolver um trabalho diferente do que ela já vinha apresentando. Reuni algumas carreiras solos e projetos de músicos que são reconhecidos por sua outra banda e que estão fazendo barulho por ai.

Christopher Owens

Owens é o cantor e compositor reconhecido pela sua antiga banda, Girls. O recente término do grupo desapontou muitos fãs, mas logo depois Chris se aventurou num disco de estreia da sua nova carreira. Lysandre é um compacto bom de ouvir, porém não se pode comparar ao glorioso início de Girls. Ele está muito mais ligado ao último disco do antigo grupo, o Father, Son, Holy Ghost!. Recheado de melodias românticas acompanhadas de levadas de violão e solos de saxofone. A voz doce e característica de Christopher ainda é bem presente e a nova sonoridade faz uma combinação muito boa com ela. O disco é interessante e mostra como o músico está agora, sem o Girls e totalmente solto e livre.



Graham Coxon

Graham foi o guitarrista da aclamada banda de Britpop, Blur. Durante sua estadia na banda, ele foi adorado e elogiado tanto pelo público quanto pela crítica, sendo até classificado como um dos melhores guitarrista da atualidade. Sua carreira solo começou em 1998 com o lançamento de The Sky Is Too High e continua até hoje, com seu último disco sendo de 2012, o A + E. Em sua carreira Graham é marcada pela experimentação, desde o Folk até o Punk. Entretanto, é pelo Lo-Fi que Coxon deixa a sua marca. Há ainda os discos que destoam da sonoridade do Blur, como The Golden D, chegando até a ser mais agressivo, e outros mais introspectivos e intimistas como Crow Sit n Blood Tree. Seu disco mais acessível e totalmente diferente dos antigos da carreira solo foi Happiness in Magazines, que seguiu uma linha bem Pop e agradou bastante os fãs do Blur com alguns singles como Bittersweet Budle Of Misery e Freak Me Out.



Pond

Pond é como se fosse uma extensão do Tame Impala, com exceção da alma criativa da banda, Kevin Parker. Formada em Perth, na Austrália, a banda conta com a participação de muitos outros músicos além dos integrantes fixos, a maioria para fazer apresentações ao vivo. O ideia inicial era fazer um projeto colaborativo, o qual eles poderiam chamar quem quiser para tocar. A sonoridade da banda não é marcada totalmente por um estilo, e sim por uma mistura de gêneros como o experimentalismo, o Shoegaze e o Psicodélico. O primeiro disco foi lançado em 2009, porém foi só com o sucesso do Tame Impala (as duas banda compartilham três membros) e com o lançamento do quarto disco, Beard, Wives, Denim que a banda conseguiu relativo reconhecimento.



Eddie Vedder

Eddie Vedder como vocalista do Pearl Jam todos conhecem, mas o Eddie Vedder romântico e tocador de ukulele a lá Israel Kamakawiwo'ole poucos tiveram o prazer de experimentar. Essa aura já vinha sendo mostradas em algumas músicas da banda, mas foi apenas em sua carreira solo que o músico conseguiu expressar esse seu lado mais íntimo. Suas melodias são simples, porém muito emocionantes, seguindo a levada do ukulele e voz calma do vocalista. Vários discos já foram lançados sob o seu nome como Ukulele Songs, Longing To Belong e a trilha sonora do filme Na Natureza Selvagem. As músicas são perfeitas para serem ouvidas num domingo a tarde ou numa praia deserta sob o pôr do sol. Vale a pena ouvir!



Atoms For Peace

Atoms For Peace é um super grupo de Rock Experimental formado em 2009 pelos seguintes músicos: Thom Yorke (Radiohead), Flea (Red Hot Chilli Peppers), Nigel Godrich (produtor do Radiohead), Joey Waronker (Beck e REM) e Mauro Refosco (percursionista brasileiro). O primeiro álbum do grupo foi lançado em fevereiro desse ano e se chama Amok. A sonoridade é mais parecida com aquilo que o Radiohead vinha fazendo em discos como Kid A e Amnesiac, um Rock bem orgânico, eletrônico e experimental. A banda foi criada a partir de uma apresentação ao vivo do disco de estreia da carreira solo do Thom Yorke, The Eraser, feita no Echoplex em Los Angeles. A parceria deu tão certo que acabou se desenvolvendo num novo projeto, e a partir de então o grupo vem se apresentando em diversos shows e festivais.

17 de maio de 2013


Nesta sexta chuvosa, reunimos algumas faixas que aparecem na hora certa nos seus filmes favoritos. Como por exemplo, no documentário do famoso grafiteiro Banksy, Exit Throught The Gift Shop, em que a trilha de abertura serve como um prenúncio da história mirabolante protagonizada pelos artistas de rua do mundo todo, ao não tão bom The Romantics, em que todas as faixas da soundtrack valem a pena serem escutadas. Há também aquelas manjadas, como a sempre linda Anyone Else But You, na voz da Ellen Page e do Michael Cera.

Além de ajudar no enredo, uma música minuciosamente escolhida pelo diretor ilustra uma situação, criando uma atmosfera, porém se ela for ruim não há nada que salve uma má história do buraco.

No caso do antecipadíssimo The Great Gatsby, que na voz de Andre 3000 e Beyonce, Back To Black, ganha vida paralela daquela proposta pela finada Amy. Em antemão, a trilha sonora do filme sucesso entre os festeiros do mundo todo, Project X, ainda toca em baladas o remix do DJ malucão Steve Aoki. Impossível deixar de fora o premiado documentário, Searching For Sugarman. Para quem gosta de música, é  imprescíndivel conhecer a história do misterioso cantor da década de 1960, Rodriguez. Com algumas outras faixas, relembrar certos filmes e conhecer outros é sempre uma boa pedida para o final de semana.


7 de maio de 2013


Hoje comentamos uma das obras mais dolorosas e apaixonantes do ano, o primeiro disco do trio encabeçado por Elena Tonra. Há na musicalidade de Daughter uma dicotomia muito interessante entre a leveza proposta pelas melodias e pela obscuridade e grande dor da lírica produzida pelo grupo. Tudo isso é posto a prova em seu ótimo debut, If You Leave, uma obra incrivelmente intimista e profunda.

#1. Winter – Bruno Carnovale

Winter tem um arranjo delicado, dócil, encantado. A melodia pode te remeter à imagem de uma flor desabrochando. A voz da frontman Elena Tonra é realmente éterea, encantadora. A sequência da melodia, com uma firme bateria, e com um baixo camuflado vão surgindo de uma forma sucinta, elegante, caprichosa, à chegar o momento que você acaba se sentindo abraçado pelo conjunto da obra. Uma das melhores músicas do disco, com certeza.

#2. Smother – Isabela Yu

Melancolia define perfeitamente o clima de asfixiante de Smother. Sufocante e ao mesmo tempo apaixonante, a fragilidade da música é impossível de ser ignorada. Mais uma belíssima faixa, do primeiro álbum de Daughter. If You Leave mantém uma linearidade nas canções similares em sua singularidade porém diferentes se analisadas de perto.

#3. Youth – Nik Silva

A terceira faixa deste álbum é também seu principal single. A letra passional cantada por Elena exprime uma série de sentimentos vividos pela juventude em versos agridoces que encantam o ouvinte e que o faz se identificar com palavra da lírica poética da moça. O acompanhamento instrumental é também um dos mais belos de todo o álbum. Ele vai crescendo ao poucos, começando somente com a gentil guitarra dedilhada, e ganhando corpo e volume, explodindo em meios aos tambores, no meio da canção. A ponte ainda guarda mais um momento explosivo e apoteótico.

#4. Still – Isabela Yu

Como no clipe disponibilizado em janeiro da canção pela banda inglesa, o casal se depara com um precipício entre eles. Ainda se amam, mas como toda relação, obstáculos vão surgindo. Provavelmente uma das faixas mais comerciais do disco, porém não deixa de lado a sensibilidade em momento algum.

#5. Lifeforms – Nik Silva

Mais uma vez conduzida pela guitarra dedilhada, a faixa se inicia lentamente, quase letargicamente. Se apoiando também nas melodias vocais de Elena, ela traduz muito da pegada minimalista que o trio carrega. Para uma faixa que ultrapassa a marca dos cinco minutos, ela se constrói o suficiente para não ficar rodando em torno de uma só ideia, absorvendo alguns ruídos da outra guitarra e mudando o timbre dela constantemente. Na metade da canção a percussão entra, mas aparece sufocada em meios aos ruídos e a doce voz da performer.

#6. Tomorrow - Nik Silva

Essa é mais faixa que se alonga por mais de quatro minutos, mas que parece suspender o efeito da passagem do tempo durante sua execução. Ela te prende em meio à potente percussão e às belas melodias vocais de Elena (que parece se tornar mais um instrumento). Mais uma vez, ela também abusa das cordas para criar esse delicioso hipnotismo. Sua letra é mais um exemplo da beleza lírica que o trio produz e da brilhante interpretação da moça.

#7. Human – Isabela Yu

“My mind’s lost in bleak vision”. Apesar de tudo, ainda somos todos apenas humanos. Com a bela letra balbuciada pela vocalista Elena Tonra, Human, é uma das melhores músicas do álbum If You Leave. Suave, a música é um grito pela sobrevivência, entre o sonho e o delírio existe o gosto amargo de estar jogado no mundo real. Termina como um despertar, deixando o ouvinte apenas com o rastro das casualidades de estar existindo.

#8. Touch – Nik Silva

Mais uma guiada pela aura atmosférica, a faixa é quase toda conduzida pela guitarra etérea fazendo os sons auspiciosos e pela outra guitarra levemente dedilhada de Elena. A percussão quase não aparece nesta, a deixando ainda mais soturna e dolorida – acompanhada, claro, pelas letras e voz interpretativa da moça.

#9. Amsterdam – Nik Silva

Em meio aos sussurros da cantora há uma aura diferente nesta faixa, talvez a mais diferente de todo o álbum. Ela tem grande presença do Folk, mas muito do Pop também, além de um quê roqueiro, algo quase indecifrável que ganha forma pelo minimalismo assertivo do trio, que sabe mostrar que menos é mais e garantir ao ouvinte uma bela viagem musical usando o menor número de recursos possíveis.

#10. Shallows – Bruno Carnovale

De uma forma ainda mais minimalista do que no começo, o disco se encerra com 'Shallows', que tem um dedilhado quase hipnotizante e uma bateria quase esquizofrênica, que vão se encontrando em meio à efeitos e a voz confortante da vocalista. Com uma estrutura que foge a regra, a faixa intercala momentos de tranquilidade quase sonolenta com uma estranha agitação dançante ao decorrer da canção, o que dá à ela um charme sombrio, que remete à memória bandas como Portishead, ou mesmo a recente The xx.


3 de maio de 2013


Olá, amigos! Após alguns meses, voltaremos com a nossa coluna semanal falando sobre as nossas conhecidas mais amadas: as guitarras. E nessa volta, teremos algumas novidades, como a abordagem aos pedais que vemos muitos guitarristas pisando, regulando, as vezes até maltratando, e nunca conseguimos entender o porque de tudo aquilo. Hoje, especificamente, vamos abordar a história de uma guitarra já antiga, mas que se faz presente em muitas bandas atuais, a Gibson ES-335.

Eu acredito que todos nós já tenhamos chegado a um ponto em nossas vidas e dizer: "isto não está bom, preciso mudar já". É completamente normal, até mesmo a Gibson chegou a este ponto (e isso foi em 1958, então, além de normal, é absolutamente necessário). A ES-335 é uma variação muito interessante da ES Series (que vimos por aqui há algum tempo), pois ela é um modelo híbrido; isto é, ela mescla as duas formas  de se fazer guitarra. Ela não é oca, mas também não é sólida. A sua base se constitui de uma base horizontal de maple (um tipo bem resistente de madeira, usado em grande escala na fabricação de guitarras), mas suas "asas" (as extremidades entre o braço) são ocas. Apesar de ela não ser nem oca nem sólida, ela se assemelha mais ao som produzido por guitarras que reverberam mesmo sem o auxílio de um amplificador, portanto, o modo certo ao se referir à ES-335 é "guitarra semi-acústica".

Até o começo dos anos 50, a Gibson só produzia guitarras semi-acústicas, como a L-5 (que ainda veremos por aqui), e outras variações da ES (com menos visibilidade que suas irmãs). Em 1952, com o surgimento da Les Paul, a Gibson percebeu que era o momento de explorar aquele novo método de se criar guitarras, e começou a renovar a linha de construção da ES. Muitos modelos surgiram a partir daí, e a 335 é um dos modelos mais famosos que surgiram a partir deste momento. Ela é muito popular por ser muito flexível, e por sua captação favorecer os mais diversos estilos musicais, desde o Delta Blues americano até ao Indie Rock mais barulhento possível. Tendo a seu favor um preço popular (nos EUA, é possível encontrar uma guitarra nova deste modelo a partir de US$ 250), ela se tornou popular em pouco tempo, fazendo um sucesso que alavanca as vendas da companhia até hoje, visto que sua fabricação é uma das maiores escalas - e um dos modelos mais reproduzidos pela Epiphone, a segunda linha da Gibson.

A ES-335 é tão cobiçada e querida no mundo da música, que vários modelos customizados acabaram se tornando modelos fixos da Gibson. Dave Grohl, do Foo Fighters, teve um modelo assinado e é comum vê-lo em shows empunhando sua customização azul. O Canadá, em virtude da alta comercialização do modelo, teve uma customização, com as cores de sua bandeira na guitarra - que foi uma ótima jogada de marketing, por colocar a Gibson e as bandas canadenses em foco. Outros grandes nomes que tiveram seus modelos criados foram o exímio Eric Clapton, Trini Lopez e Noel Gallagher. A partir deste modelo, vários outros também surgiram, como as sucessões ES-345, ES-355, CS-336 e as comuns 'Dot', 'Sheraton' e 'Riviera' (versões produzidas pela Epiphone).

Para vocês notarem a diferença sonora que ela pode produzir entre diferentes bandas, vou deixar duas bandas completamente diferentes uma da outra: a recente Daughter, que apresenta um som minimalista, quase melancólico, e o Tokyo Police Club, com suas melodias urgentes e dançantes. Percebam a funcionalidade de ambas, e como elas respondem bem apesar das diferenças gritantes.






Para uma banda que se inicia com o propósito de criar músicas novas, e não depender de covers para se alinhar, o Interpol alcançou um patamar de perfeição quase incomparável quando criou o Turn On The Bright Lights. Pessoalmente, é um álbum poderoso, com guitarras chocantes, uma bateria intensa e linhas de baixo que nunca se haviam ouvido antes. O disco também conta com, o que particularmente acredito ser, a melhor fase de composições que Paul Banks já viveu. Ouvi-lo hoje, quase 11 anos após o seu lançamento, é quase como abrir um álbum de fotografias para reviver um tempo maravilhoso, que apesar de tudo, não envelhece ou deixa de ser atual. É um dos álbuns mais concisos feitos na última década, e um dos que conseguiram a nota máxima de quase todos os seus avaliadores no ano de lançamento, 2002. Emocionante, com uma densa nuvem de tristeza que acompanha a voz de Paul durante todo o disco. Teve seu reconhecimento ao ter, no ano passado, sua edição de 10 anos lançada, com algumas gravações demo lançadas. Um disco de tirar o fôlego.

Untitled é uma das melhores faixas de abertura que já foram feitas até o dia de hoje. Uma faixa que tem pouco mais de 5 frases, e que conseguem carimbar a emoção do ouvinte por sua melodia quase hipnotizante.



Obstacle 1 foi o primeiro single lançado do Interpol; até então desconhecida do grande público, arrebatou multidões com seu ritmo seco, progressivo, variante e intenso. Uma melodia que, com certeza, ajudou o grupo a se firmar como um dos grandes expoentes da cena independente de Nova Iorque no começo do século, ao lado de bandas como The Strokes e Yeah Yeah Yeahs.

A terceira faixa, NYC, desacelera o ritmo imposto por suas antecessoras, e se compõe de uma melodia mais calma, com solos constantes e uma ode à cidade natal da banda, com frases intrigantes e com ampla interpretação.

PDA pode ser considerada como o melhor resumo do disco como um todo: uma bateria potente, firme e pulsante. Carlos Dengler com certeza colocou seu nome no hall de melhores baixistas do mundo a partir desta faixa: ao contrário do que é comum se esperar de baixistas em bandas de rock, suas batidas envolviam uma dissecagem de todas as partes do baixo, inclusive as mais agudas, transformando sua parte da música em um verdadeiro labirinto para os ouvidos. As guitarras duelantes, compassadas e exacerbando efeitos mostram a capacidade inventiva de Paul e Daniel, transformando cada parte individual em uma única áurea de frieza encantadora.

Acredito que Say Hello to The Angels é a música comum (se tratando de rock) do Interpol. Aquela agressividade gratuita que a guitarra oferece ao ser palhetada, em como você se torna o dono do mundo por 4 minutos ao empunhá-la; em como você se torna um gigante atrás de tons, caixa e bumbo, em como aquilo transforma o sentimento de ser apenas comum em ser alguém grande, visível. Somada à nuvem de tristeza anunciada antes, esta faixa se torna em uma preparação, em uma prévia do que o álbum oferece a seguir.



Hands Away desacelera por completo a velocidade em que o álbum desenvolve até então. Uma guitarra e a bateria ditam o ritmo da melodia que se mostra quase crescente, mas que mantém aquele ritmo prévio. Uma das faixas mais tocantes do disco.

O disco retoma o "comum" até então com Obstacle 2, e suas intrínsecas curvas musicais. Outro labirinto montado pela "cozinha" composta por Carlos Dengler e Samuel Fogarino. Não sei porque, mas essa música sempre me remeteu a palavra "caleidoscópio", e por algum motivo, pode ser descrita assim - as guitarras e seus efeitos, de alguma forma, "refletem uma na outra", criando assim uma órbita de ecos, tanto da voz, quanto das próprias guitarras. Encantadora.

E então se inicia uma das melhores músicas de toda a carreira do Interpol: Stella Was a Diver and She's Always Down. Uma bateria marchante, um baixo intrigante, a guitarra esparsa e a voz marcante de Paul Banks geraram uma das faixas mais bonitas do álbum, que passeia entre várias sonoridades, criando uma visão completamente diferente de si mesma ao longo de sua execução.

Roland é similar ao que se propõe Say Hello to The Angels: ela é direta, agressiva, com frases emblemáticas e um dos pontos altos quando o tópico é a bateria. Ela chega a ser arrepiante em alguns momentos. (E, musicalmente falando, é difícil uma música gerar este tipo de sentimento quando ela é criada em tons maiores). Ela jorra riffs pesados, e junta sons que, anteriormente, só eram encontrados juntos em peças de música clássica. A concisão dos quatro integrantes até aqui já é algo merecedor de todos os aplausos juntos, mas, na minha opinião, nada se compara ao gran finale que se aproxima.

The New é a melhor música do álbum. Particularmente, não tenho dúvidas à respeito. Não se pode deixar de se encantar com a faixa mais completa de todo o álbum: a frieza da repetição das estridentes linhas de guitarra, o baixo acanhado que toma por completo a atenção durante a melodia, a bateria que se mantém firme e não tira para si o foco como um todo, e tem, provavelmente, a melhor gravação de estúdio já feita da voz de Paul Banks. A música se divide em duas partes: a parte cantada e a parte instrumental. Enquanto a primeira parte já é emocionante por conta da letra que Paul Banks canta ("..settling down takes time/one day we'll live together/and life will be better/I have it here, yeah, in my mind..."). Após o pequeno estribilho entre as partes, ditado por um baixo que muda o destino da melodia impiedosamente, tudo se transforma: as guitarras em constante ritmo repetitivo, o baixo raivoso que se faz presente e chama a atenção para si, e a bateria determinante em todo o resto da canção. É sublime.



Leif Erikson encerra o disco com o ouvinte já ganho, mas mesmo assim não deixa a qualidade do álbum cair: a composição com as partes mais ambíguas possíveis se mostra vestida numa melodia mais calma, numa áurea de tristeza ainda maior do que as anteriores. O final ideal para um disco debutante de uma banda até então desconhecida, que levou o Interpol ao lugar que ocupa hoje, uma das grandes bandas do Rock Alternativo atual.



Ouvir o Turn On The Bright Lights é como estudar o sistema solar. Cada faixa se assemelha à um planeta, e de alguma forma, ele influencia a vida como um todo. Cada faixa possui uma peculiaridade, e a forma como ela surgiu, já não faz muita diferença; o importante agora já é tentar descobrir como elas continuarão a influenciar o futuro nos mais diversos âmbitos, seja conosco, seja com os próprios integrantes (os remanescentes) da banda.